terça-feira, 29 de setembro de 2026
Cidades

Nhamundá guarda paisagens e tradições que atravessam a história do Amazonas

Nhamundá, no Baixo Amazonas, construiu sua identidade entre rios, florestas, comunidades ribeirinhas e narrativas indígenas. Conhecida como Ilha Bela da Amazônia e Ilha das Icamiabas, a cidade preserva tradições relacionadas à pesca, à religiosidade, à agricultura familiar e às festas populares.

Nhamundá, no Baixo Amazonas, é um município marcado pela presença das águas, pela memória indígena e pela vida das comunidades ribeirinhas. Localizada às margens do rio que leva o mesmo nome, a cidade reúne praias de água doce, ilhas, lagos, áreas de floresta e uma cultura formada pela convivência entre diferentes povos e modos de vida.

Conhecida também como Ilha Bela da Amazônia e Ilha das Icamiabas, Nhamundá preserva referências históricas e lendárias associadas à formação do Amazonas. No cotidiano, essa identidade aparece na relação com os rios, na pesca, nas festas religiosas, nas atividades comunitárias e nas manifestações culturais que atravessam gerações.

Um município ligado ao rio e à fronteira entre estados

Nhamundá está situada na região do Baixo Amazonas e é considerada um dos municípios mais orientais do estado. O rio Nhamundá integra a paisagem e a organização do território, além de funcionar como caminho para o deslocamento de moradores, pescadores e visitantes.

O município faz divisa com o Pará, em uma área onde a rede hidrográfica tem papel decisivo na vida econômica e social. Como ocorre em diversas partes do interior amazônico, os períodos de cheia e vazante interferem no transporte, na pesca, no acesso às comunidades e na rotina das famílias que vivem em áreas rurais.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que Nhamundá tinha 20.136 habitantes no Censo de 2022. O território municipal possui grande extensão e inclui áreas urbanas, comunidades rurais, rios, lagos e espaços de floresta. (ibge.gov.br)

Origens indígenas e formação do nome

A história de Nhamundá está relacionada a povos indígenas que ocupavam a região antes da chegada dos colonizadores europeus. A memória preservada pela Prefeitura menciona grupos como tcháwhiyána, hixkariana, sákáka, kamáeyana, chiriwiyána, kumuyána, wari condurizes e jamundás.

Segundo a narrativa histórica divulgada pelo município, o nome Nhamundá deriva de Jamundá, associado ao tuxaua da tribo Wabuy. A tradição conta que esse líder teria conduzido seu povo para as cabeceiras do rio em meio a conflitos provocados pela exploração e pelos maus-tratos praticados durante o processo de colonização.

Essa explicação faz parte da memória histórica local e ajuda a compreender como os nomes dos rios e dos lugares amazônicos guardam referências a povos indígenas, lideranças e acontecimentos transmitidos por diferentes gerações. A origem do nome, portanto, está ligada tanto ao território quanto às narrativas de resistência que permanecem presentes na identidade do município. (nhamunda.am.gov.br)

Icamiabas e o imaginário que deu nome ao Amazonas

Entre as principais narrativas associadas a Nhamundá está a lenda das Icamiabas, mulheres guerreiras que, de acordo com a tradição, viviam em uma sociedade formada por mulheres e dominavam o arco e a flecha. O relato local relaciona essas personagens às descrições feitas por integrantes da expedição de Francisco de Orellana, no século XVI.

As Icamiabas foram comparadas às Amazonas da mitologia grega. Essa associação teria contribuído para a escolha do nome Amazonas, usado posteriormente para designar o grande rio e o estado brasileiro. Embora a narrativa combine registros históricos, relatos coloniais e elementos míticos, ela ocupa lugar importante na cultura regional.

Também faz parte desse imaginário a história do muiraquitã, amuleto de pedra verde associado às guerreiras. Nas tradições amazônicas, o objeto aparece relacionado à fertilidade, à proteção e às trocas simbólicas entre povos. Em Nhamundá, essas referências ajudam a explicar a denominação Ilha das Icamiabas e reforçam a ligação entre paisagem, memória indígena e identidade cultural.

Como ocorre com outras narrativas de origem amazônica, a história das Icamiabas deve ser compreendida como uma tradição formada por diferentes camadas: relatos de viajantes europeus, interpretações posteriores e memórias indígenas e populares. Seu valor está também na forma como continua sendo contada e incorporada à cultura do município. (nhamunda.am.gov.br)

Da vila ao município autônomo

A formação administrativa de Nhamundá ocorreu ao longo de diferentes períodos. A localidade foi elevada à categoria de vila em 1758. Já no início do século XX, apareceu na divisão administrativa como parte do município de Parintins e, posteriormente, esteve relacionada ao distrito de Jamundá.

O desmembramento de Parintins ocorreu em dezembro de 1955, quando Nhamundá passou a constituir um município autônomo. A instalação oficial da cidade é registrada em 31 de janeiro de 1956, data que passou a ser celebrada como aniversário do município.

A trajetória administrativa revela uma característica comum a várias cidades do interior do Amazonas: a organização política acompanhou a ocupação dos rios, a formação de povoados e a necessidade de administrar territórios extensos e de acesso condicionado pelos ciclos das águas.

Ao longo desse processo, a localidade também foi identificada por denominações como Ilha das Cotias e Ilha Afonso de Carvalho, antes da consolidação do nome Nhamundá. Essas mudanças fazem parte da história de uma cidade cuja identidade foi sendo construída entre referências indígenas, administração colonial, vida ribeirinha e criação do município. (nhamunda.am.gov.br)

Paisagens formadas por rios, praias e lagos

A paisagem de Nhamundá é dominada pela água. O rio Nhamundá, os canais, as áreas alagáveis e os lagos formam um ambiente que muda de acordo com o nível dos rios. Na época de vazante, praias fluviais ganham espaço e passam a ser utilizadas para lazer e atividades comunitárias.

Entre os pontos associados ao turismo local está a Praia da Liberdade, onde são realizados festivais de verão. As praias de água doce são parte importante da experiência de moradores e visitantes, mas sua configuração pode variar conforme o período do ano e as condições hidrológicas.

Outra área de destaque é o Complexo de Lagos do Macuricanã, relacionado à Área de Proteção Ambiental Nhamundá. A região reúne ambientes aquáticos e florestais que contribuem para a diversidade do município e para a manutenção de atividades como a pesca.

O Alto Rio Nhamundá também é citado como área de ocorrência de peixes de couro. Esse conjunto de rios e lagos reforça a importância do manejo responsável dos recursos naturais e da conciliação entre turismo, pesca, conservação ambiental e proteção dos modos de vida das comunidades. (nhamunda.am.gov.br)

Pesca e turismo ligados à identidade local

A pesca é uma das atividades mais associadas a Nhamundá. Além de fazer parte da alimentação e da economia de muitas famílias, ela se transformou em um dos principais atrativos para visitantes interessados na pesca esportiva.

A Festa da Pesca ao Tucunaré é apresentada pela Prefeitura como um dos eventos tradicionais do município. A programação inclui um festival de pesca esportiva com duração de 72 horas e costuma ocorrer no último fim de semana de setembro, sob organização e fiscalização dos órgãos municipais responsáveis pelo turismo, pela cultura e pelo meio ambiente.

O tucunaré é valorizado pela pesca esportiva por sua capacidade de resistência, enquanto outros peixes, especialmente os chamados peixes de couro, também são encontrados em áreas do município. A prática, no entanto, depende de autorização local e deve respeitar as regras ambientais aplicáveis.

A pesca esportiva também movimenta serviços, transporte, alimentação e hospedagem. Por isso, representa uma possibilidade de geração de renda, mas exige planejamento para evitar pressão excessiva sobre os estoques pesqueiros e impactos sobre os ambientes naturais.

O turismo de Nhamundá não se resume à pesca. As praias, os lagos, as comunidades, as narrativas indígenas e as festas populares formam um conjunto de experiências relacionadas à paisagem e à cultura. (nhamunda.am.gov.br)

Festas, religiosidade e vida comunitária

As tradições de Nhamundá também aparecem nas festas religiosas e nos eventos culturais. O calendário local reúne celebrações ligadas a santos padroeiros, festivais de verão, eventos comunitários e atividades que valorizam a produção rural e os costumes do interior do Amazonas.

A religiosidade tem presença importante na vida pública e comunitária do município. Festas de santos, procissões, celebrações e encontros religiosos funcionam como momentos de reunião entre famílias que vivem na sede e nas comunidades rurais.

As manifestações populares podem incluir música, danças, culinária regional, artesanato e formas de participação coletiva. Em uma cidade com comunidades espalhadas por um território extenso, esses eventos também contribuem para manter vínculos sociais e transmitir conhecimentos entre gerações.

A agricultura familiar, a produção de farinha, o extrativismo e o comércio de produtos regionais integram a economia e a cultura do município. Mesmo quando não aparecem como atrações turísticas, essas atividades ajudam a explicar como as famílias se relacionam com a terra, a floresta e os rios.

Memória e preservação do território

A história de Nhamundá não está apenas em documentos oficiais ou em datas administrativas. Ela também está nas histórias contadas por moradores, nos nomes dos lugares, nas práticas de pesca, nas festas, nas viagens pelos rios e na permanência de referências indígenas no imaginário local.

Preservar essa memória envolve reconhecer a contribuição dos povos originários e valorizar as comunidades que mantêm conhecimentos sobre os ciclos das águas, os ambientes de pesca, as plantas, os caminhos fluviais e as formas de ocupação do território.

Ao mesmo tempo, a conservação das paisagens depende de políticas públicas, fiscalização, planejamento turístico e participação comunitária. A proteção dos lagos, das praias e das áreas de floresta é fundamental para que as atividades econômicas e culturais continuem existindo no futuro.

Nhamundá guarda, assim, uma identidade construída na confluência entre história e natureza. O município reúne um passado marcado por povos indígenas e pela formação administrativa do Amazonas, um presente ligado à vida ribeirinha e à pesca e um patrimônio cultural que continua sendo transmitido por meio das festas, das lendas e das relações comunitárias.

Mais do que um destino de paisagens amazônicas, Nhamundá é um território onde rios, memórias e tradições se encontram. É nessa combinação que a cidade preserva sua singularidade no Baixo Amazonas e mantém viva uma parte importante da história cultural do estado.